“Chuva de quarta-feira poderia ter causado uma nova enchente”, diz Sidney Aguiar

foto defesa civil lencois paulista




Trabalho preventivo da Defesa Civil e do Comitê Gestor da Bacia Hidrográfica do Rio Lençóis foi essencial para que os prejuízos não fossem maiores

A chuva de quarta-feira, dia 20, assustou moradores de Lençóis Paulista. Logo veio à mente o pesadelo de 2016, quando a cidade foi acometida pela maior enchente de sua história. Segundo Sidney Aguiar, colunista da Revista O Comércio, pesquisador e especialista em Sustentabilidade, Direito Ambiental e Recursos Hídricos, o evento climático dessa semana poderia ter causado estragos maiores se não fosse o trabalho preventivo da Defesa Civil e do conselho técnico do Comitê Gestor da Bacia Hidrográfica do Rio Lençóis.

Confira mais alguns pontos abordados por Sidney, em entrevista exclusiva à Revista O Comércio.


1) A chuva de ontem poderia ter ocasionado uma enchente? Se sim, em quais proporções?

Sim. O sistema de segurança empregado na bacia hidrográfica do rio Lençóis obteve uma eficiência de 30%, levando em consideração que já estávamos em estol hídrico severo (perda de drenagem fluvial). As chances de ocorrer uma enchente eram consideradas altas e reais, só não ocorreu em razão do volume pluviométrico ter se concentrado no quadrilátero do perímetro urbano de Lençóis Paulista, entre as Rodovias Osny Matheus e Marechal Rondon, e o rio Lençóis a jusante da cidade de Lençóis Paulista. Caso isso tivesse ocorrido também a montante da cidade, certamente teríamos tido problemas mais sérios.

2) Qual foi o volume registrado?

Em quatros pontos de captação de índices pluviométricos da cidade de Lençóis Paulista tivemos um acumulado de 180 mm /m2 com média de 80 mm / m2. Para efeito de cálculo de contribuição, usamos o acumulado na fórmula matemática e para cálculo de drenagem usamos a média.


3) Você acredita que o trabalho preventivo desenvolvido pelo Comitê Gestor da Bacia do Rio Lençóis ajudou a evitar algo pior?

O trabalho do CGBH-RL é muito importante na gestão integrada da bacia, mas o trabalho que está sendo desenvolvido pelo município de Lençóis Paulista em estabelecer uma Política Municipal de Recursos Hídricos é de igual importância. Desde 2017, Lençóis Paulista tem feito dentro da administração municipal, por meio da Coordenação Técnica de Recursos Hídricos e também dando à Defesa Civil autonomia técnica. As empresas da região também têm dado suas contribuições para o gerenciamento da bacia do rio Lençóis, seja via Conselho Técnico do CGBH-RL ou até mesmo por iniciativas próprias. Se não fosse todo esse trabalho de gestão de águas na bacia do rio Lençóis, certamente as situações teriam sido piores.

4) A Defesa Civil e o conselho técnico do Comitê já sabiam que poderia chover em demasia naquele dia?

Nós já tínhamos a presunção de riscos desde o final de janeiro. No mês de janeiro deveria ter chovido 3.000 mm acumulados em toda a extensão da bacia do rio Lençóis, no entanto, só choveu 1.600 mm. Isso acendeu o “sinal amarelo” em todos os técnicos que trabalham com as variáveis hidroambientais. No dia 15 de fevereiro, atingimos a cota pluviométrica do mês de fevereiro, que é de 1.000 mm acumulados em toda a bacia do rio Lençóis. Com isso, já estávamos se preparando para, a qualquer momento, sermos surpreendidos com um volume extremo. Entre os dias 15 e 16 de fevereiro, utilizando-se de um método de cálculo de contribuição, registramos um acumulado de 600 mm em toda a bacia do rio Lençóis. Às 12h do dia 20 de fevereiro, utilizando de um sistema muito utilizado pelos americanos na detecção de tempestades tropicais por meio de uma carta meteorológica da bacia do rio Lençóis, detectamos a possibilidade de ocorrer um volume próximo de 100 mm. Em uma hora os sistemas de segurança da bacia foram acionados, a Defesa Civil avisada e tivemos a felicidade de chegar juntos ao evento. Isso proporcionou um ataque mais rápido e tomadas de decisões mais acertadas.

5) Você possui várias especializações na área ambiental e também é especialista em recursos hídricos, inclusive é professor universitário e até publicou livros e trabalhos acadêmicos sobre o tema da água, abordando a questão da gestão riscos e gestão de águas. Como são feitas essas gestões e como devem ser encaradas?

A gestão de águas e de gestão de riscos devem ser empregadas sem viés pessoal ou partidário. As duas são feitas de formas restritivas e recomendativas, sempre de forma criteriosa e técnica. No nosso caso, elas têm sido feitas sem os vieses pessoais e partidários, é por isso quem vem dando certo. No caso da Política Municipal de Recursos Hídricos, ela precisa sempre ser mantida independentemente de quem seja o prefeito ou de quem seja o responsável pela política de águas. No caso da gestão integrada da bacia do rio Lençóis feita pelo CGBH-RL, se um dia ela terminar, os riscos voltarão aos níveis anteriores a 2016, quando tivemos a pior inundação da história. Nós partimos de 2016 com 0% de segurança ambiental e chegamos em 2019, com 40% de segurança. E precisa ter continuidade para estabelecer índices maiores de segurança ambiental.

6) Como professor universitário você tem fama de ser muito metódico e até com alcunha de ser bem conservador em relação à algumas posições ambientais, como por exemplo, manter conservada as margens de rios, principalmente no meio urbano e ocupações irregulares. Como você explica isso?

Por eu ser um professor universitário, preciso passar aquilo que a legislação ambiental exige e que as Normas Técnicas recomendam. As vegetações ciliares, que protegem os rios, independente se estão na área rural ou urbana, possuem as mesmas funções, de proteger os rios de processos de assoreamento, lixiviamento de encostas e desbarrancamentos. As vegetações ciliares é um importante instrumento para combater cheias de rios. É uma pena que as pessoas acham que são sujeiras. Sujeira é o lixo ou entulho que são depositados de forma errada nas margens dos rios. Sobre as ocupações irregulares das APPs, os rios sempre transbordam, isso é normal. É necessário haver um equilíbrio nesse sentido, de se respeitar o direito da água para que o rio possa respeitar o fator humano.