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Guilherme




Conheça a história de vida de Guilherme Dalla Déa, técnico campeão da Copa do Mundo de Futebol SuB-17 que tem raízes fincadas em Lençóis Paulista

Angelo Franchini Neto

No dia 17 de novembro, a Seleção Brasileira sub-17 de futebol conquistou a Copa do Mundo da categoria após derrotar o México, de virada, pelo placar de 2 a 1. Foi a primeira vez que uma equipe de futebol canarinha – de qualquer categoria – conquista um mundial jogando em casa. Um dos grandes responsáveis pelo feito é o técnico Guilherme Dalla Déa, que tem uma relação muito íntima com Lençóis Paulista, onde conheceu a sua esposa e também começou a sua carreira profissional no futebol.

Não à toa, Guilherme foi escolhido como a Capa da edição de dezembro. Gentilmente ele aceitou bater um papo com a equipe de jornalismo da Revista O Comércio e falou sobre o passado, presente e futuro. Confira!



A relação com Lençóis Paulista

Guilherme nasceu no ano de 1971, em São Carlos, e sempre teve Lençóis Paulista como a sua segunda casa. “Em 1987 comecei a ir à Lençóis Paulista para visitar o pai de um amigo da nossa família e logo comecei a conhecer outras pessoas. Nas férias escolares (na época, Guilherme tinha apenas 15 anos), acompanhado do senhor Durval Repke, revia alguns destes amigos que me tratavam como se eu fosse da família”. Em 1989, Guilherme recebeu o convite do ex-goleiro Jonas para treinar no CAL (Clube Atlético Lençoense). “Joguei no CAL de 1990 a 1991 e estreitei ainda mais a minha relação com Lençóis Paulista”. Foi nesta época que ele conheceu a esposa, Lisangela, que tem em seu DNA as famílias Boso e Andreolli, ambas lençoenses.

Lembranças da Cidade do Livro

Entre uma lembrança aqui e outra acolá, algumas ficaram marcadas na vida de Guilherme. “Por incrível que pareça eu faço aniversário no mesmo dia que Lençóis Paulista (28 de abril). Outra coincidência: a rua da minha sogra é a Otaviano Brisola, e o sobrenome da minha vó é Otaviano. Essas coisas me marcaram muito”. As amizades feitas na Cidade do Livro ficaram para a vida toda. “Tenho grandes amigos, os quais considero como irmãos e que sempre me acolheram de braços abertos”, lembra.

A carreira no futebol

Guilherme começou a sua carreira como atleta de futebol em 1986, como meia armador, em São Carlos. Mas logo esse cenário começou a mudar. “O meu pai foi goleiro profissional e por isso o meu treinador via em mim um perfil semelhante. Em uma das competições, em 1987, ele me colocou como goleiro e foi naquele momento que comecei a treinar nessa posição”. Após passar pelo Grêmio São Carlense, se transferiu para o CAL. “Meus pais sempre deixaram claro que eu poderia jogar futebol, mas teria que estudar paralelamente. Quando ingressei na faculdade de Educação Física em 1991, o futebol começou a ficar em segundo plano e por isso decidi abandoná-lo por um tempo”.

Ainda em 1991, Guilherme recebeu o convite de um clube social de São Carlos para trabalhar com escolinhas de formação. “Naquela época havia um ‘boom’ de treinadores de goleiro e foi nessa linha que o meu trabalho deslanchou”. Trabalhou alguns anos no clube social, até que fundou o projeto Gol de Placa, ainda em São Carlos. Transferiu-se para o Clube Atlético Paulistinha, outro projeto conhecido no interior de São Paulo, e em 2007 recebeu o convite para trabalhar no São Carlos Futebol Clube. Em 2012, deu um grande salto na carreira e foi parar no São Paulo, onde ficou até 2015, ano em que recebeu o convite para treinar a Seleção Brasileira sub-15 de futebol.

O ápice da emoção

“Lembro que, naquele dia, não consegui dormir”. É dessa forma que Guilherme define o momento em que recebeu o convite da CBF (Confederação Brasileira de Futebol). “Passei por uma espécie de avaliação juntamente com outros dois candidatos, e depois de um mês me informaram que eu seria o treinador da Seleção Brasileira sub-15. Jamais poderia recusar um convite de uma entidade tão grande como é a CBF”. Não demorou muito para Guilherme subir para a Seleção sub-17, onde a sua vida mudou ainda mais.

O que esperar do futuro?

O trabalho de Guilherme à frente da Seleção Brasileira Sub-17 é incontestável. Juntamente com a comissão técnica, ele e os jogadores plantaram uma semente há dois anos, ainda no sub-15, e hoje colhem bons frutos. Mas e para o futuro, o que esperar? “O futuro deixo nas mãos de Deus, que sempre me abriu portas. Não abro mão de ser uma pessoa simples, humilde e de muito respeito às pessoas. O que sei é que ainda tenho muito trabalho a ser feito”, finaliza o técnico.

Da preparação à glória

Essa geração campeã da Copa do Mundo de Futebol Sub-17 disputou há dois anos o Sul Americano sub-15, na Argentina, onde foi vice-campeã. Ou seja, já são dois anos de preparação até chegar à glória, que é o campeonato mundial. “Passamos por momentos felizes e alguns não tão bons. O campeonato mundial veio coroar todo o trabalho de uma geração que começa com quase 98 jogadores observados desde 2017. Não somente nós, mas a base do futebol brasileiro em si, necessitava de uma conquista tão importante”, revela Guilherme. O Brasil não ganhava uma Copa do Mundo de futebol de base há 16 anos.

Esse gostinho de conquistar a Copa Do Mundo em casa é mais do que especial para toda a comissão técnica. “É a primeira Copa do Mundo conquistada aqui, em nossas terras, em todas as categorias. Temos que enaltecer a iniciativa do Rogério Caboclo (presidente da CBF) e do Branco (coordenador técnico), que foram mentores de tudo isso e que dão continuidade a um trabalho que começou lá atrás. Com certeza esta conquista vai ficar marcada na história do futebol brasileiro”.

Para Guilherme, muitos jogadores da Seleção Brasileira Sub-17 podem ter sucesso e chegar à Seleção Brasileira principal. “Quando se ganha um torneio de tal importância, muitas vezes isso interfere no extracampo. Torço e vamos trabalhar para que isso não ocorra, porque tenho convicção de que muitos destes atletas podem servir à Seleção Brasileira principal futuramente. E esse é o nosso trabalho: selecionar os melhores do momento, mas enxergando um futuro melhor para os atletas”.

Expectativa x realidade

Da mesma maneira que vários atletas de base se tornam profissionais, outros acabam ficando pelo caminho. E é por isso que o trabalho de Guilherme não é somente técnico e tático, mas também psicológico. “Eu mesmo comecei como jogador, mas em momento algum abandonei os estudos. Vários atletas abdicam da sala de aula e, quando a carreira não dá certo, se perdem. Também existem casos de profissionais que não vingaram no futebol e se tornaram médicos, advogados. O que tenho percebido é que os clubes estão cada vez mais preocupados com este cenário. É claro que é muito complicado conciliar as duas coisas, mas muitos conseguem e isso é muito bom para o futebolista, que raciocina melhor dentro e fora do campo”.