Educando através da música

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Coordenadora do Projeto Guri de Lençóis Paulista, Aline fala da paixão em trabalhar com a música no desenvolvimento social do ser humano

Angelo Franchini Neto

Formar cidadãos através da música. Esse é o principal objetivo do Projeto Guri, que em Lençóis Paulista é coordenado por Aline Felício Prado Consalter. “Quando a criança ou o adolescente chega no Projeto, eu procuro entender o que está acontecendo em sua vida. Há alguma violação de direito? Se a resposta for ‘sim’, já é realizado um tratamento específico. Faço contato com o profissional e começamos um trabalho em rede”.

O aluno do Projeto Guri é acompanhado de perto por uma equipe especializada que vai ensinar não somente música, mas também atividades socioeducativas. “Nós acompanhamos as crianças e adolescentes sem os expor. Nesse acompanhamento, explico que o projeto existe para atendê-los e que há uma hierarquia. A pessoa mais importante é o guri, depois o educador e por último vem o coordenador. Quando o aluno se sente parte importante desse processo, aí sim as coisas começam a caminhar”. Além dos alunos que têm os seus direitos violados, o Projeto Guri atende crianças e adolescentes com deficiência, em medidas socioeducativas e também as que querem apenas aprender música. “Tenho alunos de diferentes classes sociais, de todas as escolas públicas e particulares da cidade”, reforça Aline.



Apesar de a formação do Projeto Guri ser de orquestra e banda sinfônica, outros ritmos são inseridos no dia a dia. “Não posso deixar de lado o aspecto cultural que a criança está inserida. ‘Ah, cresci ouvindo funk com a minha família. Por que então vou tocar somente música clássica?’ Mas, se for um funk de baixo calão, por exemplo, vamos trabalhar os insights nesse adolescente, fazer ele raciocinar mesmo e dar o caminho, sem apontar o resultado”.

É o tal do desconstruir para construir. “Isso é o que mais fazemos aqui”. Ao todo são três turmas. A inicial, que conta com aulas das 13h30 às 14h30; a intermediária, das 14h30 às 15h30; e a turma avançada, com aulas das 15h30 às 17h30. “A graduação depende de cada aluno e quem define isso é o professor, juntamente com o supervisor técnico daquela área”.

Amor pelo ser humano

Apesar de estar à frente do Projeto Guri há apenas dois anos, Aline trabalha com voluntariado há muito tempo.

Aos 17 anos, se tornou educadora de crisma na paróquia Nossa Senhora Aparecida, onde permaneceu por seis anos. “Eu gosto de gente, de ser proativa e de colaborar”.

Em 2010, descobriu o projeto Formação de Líderes. “Trabalhava na época como secretária em um escritório de advocacia, mas como estava fazendo faculdade, sabia que ali (Formação de Líderes) poderia aprender algumas práticas”.

Entrou como voluntária e passou para estagiária, até que começou a trabalhar como analista financeira na Eba Consultoria. “Paralelamente, na escola Vera Braga Franco Giacomini, fui bolsista do programa Escola da Família por três anos”.

Durante outro estágio, dessa vez no departamento de finanças da Zilor, Aline recebeu a proposta de ser efetivada. No entanto, o amor pelo contato com as pessoas logo começou a falar mais alto. “Tem uma frase do Mahatma Gandhi que diz ‘Seja a mudança que você quer ver no mundo’. Eu nunca cobrei das pessoas que elas fossem a mudança e por isso me coloco como agente de transformação”.

Em 2017, após ir para o mercado de trabalho para buscar o seu “verdadeiro eu”, Aline descobriu o Projeto Guri e se candidatou para a vaga de coordenação no polo de Lençóis Paulista.

Reerguendo o projeto

Após passar por um processo seletivo na cidade de São Carlos, Aline foi aprovada e assumiu o polo lençoense do Projeto Guri em fevereiro de 2017. “Foram dadas algumas metas que, se nós não cumpríssemos, o polo poderia ser fechado. Como sou oriunda de exatas, comecei a montar estratégias para reverter a situação. Fui estudar um pouco de fundamentos da teoria da música para ter um pouco de embasamento técnico, pois lidero uma equipe de seis educadores musicais”.

A conhecida proatividade de Aline fez com que a jovem adquirisse mais conhecimento e transmitisse segurança à equipe, que estava desmotivada.

“O Projeto Guri oferece extensões para os alunos que completam 18 anos. São processos seletivos para se tornar educador, intercâmbios e a possibilidade de fazer parte de grupos de referência, que oferecem bolsas de estudo”.

O trabalho logo começou a gerar excelentes frutos. “Eu percebi que, se nos uníssemos, poderíamos fazer um bom trabalho. Daí comecei a construir essas pontes”.

Em um mês e meio, o Projeto Guri foi de 40 a 120 alunos, que era o máximo que o antigo prédio suportava. “Saímos de um polo com indicador de fechamento para um polo modelo. Visto isso, o Secretário de Cultura da cidade nos fez uma visita e identificou que o prédio era insalubre. Foi nesse momento que viemos para o Centro, na Casa da Cultura”.

Além de ser um grupo de referência, o Projeto Guri em Lençóis Paulista revelou o aluno Lucas D’ Alessandro, que conheceu o violoncelo, estudou, fez conservatório, prestou o processo seletivo para professor, se tornou educador e participou do MOVE (Musicians and Organizers Volunteer Exchange), um projeto de intercâmbio internacional que seleciona apenas cinco músicos de todo o estado para uma imersão musical.

Outra conquista é o festival internacional Imagine Brazil, que no dia 9 de novembro deste ano acontece em Lençóis Paulista. “Também participamos, com o grupo de percussão, de quatro edições do concurso de composições do Projeto Guri. Conquistamos um terceiro lugar em 2017, nos tornamos campeões em 2018 e, nesse ano, ficamos na quinta colocação”.


Matrículas em Lençóis Paulista

As matrículas do Projeto Guri reabrem no dia 6 de agosto e seguem até o dia 24 do mesmo mês. Ao todo são oferecidas 200 vagas para os cursos de Canto Coral, Bateria e Percussão, Cordas Agudas (violino e viola erudita), Cordas Graves (violoncelo e contrabaixo acústico), Madeiras (flauta transversal, saxofone e clarinete) e Metais (trombone, trompete, eufônio e tuba).

Para participar, não é preciso ter conhecimento prévio de música, nem realizar testes seletivos. Basta ter entre 8 e 18 anos incompletos, ir até a Secretaria de Cultura de Lençóis Paulista das 13h às 17h e levar os seguintes documentos: cópia do RG do aluno e responsável, cópia do comprovante de endereço e atestado de matrícula escolar. Caso a criança ou jovem não tenha RG, é aceita a certidão de nascimento. A presença dos pais ou responsáveis é indispensável no ato da matrícula.

Mais sobre o Projeto Guri

Mantido pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, o Projeto Guri é considerado o maior programa sociocultural brasileiro e oferece, nos períodos de contraturno escolar, cursos de iniciação musical, luteria, canto coral, tecnologia em música, instrumentos de cordas dedilhadas, cordas friccionadas, sopros, teclados e percussão, para crianças e adolescentes entre 8 e 18 anos.

Mais de 50 mil alunos são atendidos por ano, em quase 400 polos de ensino, distribuídos por todo o estado de São Paulo. Os quase 340 polos localizados no interior e litoral, incluindo os polos da Fundação CASA, são administrados pela Amigos do Guri, enquanto o controle dos polos da capital paulista e Grande São Paulo fica por conta de outra organização social.

A gestão compartilhada do Projeto Guri atende a uma resolução da Secretaria que regulamenta parcerias entre o governo e pessoas jurídicas de direito privado para ações na área cultural. Desde seu início, em 1995, o Projeto já atendeu cerca de 770 mil jovens na Grande São Paulo, interior e litoral.