Os ensinamentos da vida

Keia




Professora aposentada, Keia encarou o câncer de mama; ela contou com a ajuda da família, da religiosidade e da música para vencer a doença

Angelo Franchini Neto

Chegamos ao Outubro Rosa, mês de conscientização sobre a prevenção do câncer de mama. E diante dos tantos casos já relatados aqui, na Revista O Comércio, o deste ano traz algumas lições para a vida. E quem nos ensina a como viver com pujança é a professora aposentada Euricléia Aparecida Paccola Moretto, conhecida carinhosamente como Keia, que encarou (e venceu) o câncer de mama.

Nascida em Lençóis Paulista, filha de lençoenses, Keia formou-se no Magistério e logo começou a trabalhar na Prefeitura Municipal da cidade. “Foram 23 anos de Prefeitura, até que fiquei doente”, lembra a Capa do Outubro Rosa da Revista O Comércio, que revela: sempre teve medo do câncer. “A minha mãe faleceu com 42 anos devido a um câncer que não foi tratado de maneira correta durante quatro anos. Então eu pensava ‘isso pode acontecer comigo’”. Por conta do medo, Keia ia ao médico frequentemente e pesquisava sobre as doenças nas mais variadas literaturas.



“Meu mundo desabou”

A descoberta do câncer de mama aconteceu há exatos 20 anos, um ano após Keia perder outro ente querido, o irmão. “A gente era muito ‘grudado’, cuidei dele como se fosse meu filho. Foi um sofrimento enorme”. A Capa do Outubro Rosa fez um exame de rotina por conta do medo e logo foi constatado um pequeno nódulo. “Na época eu havia feito plástica na mama e por isso a suspeita era de um queloide, jamais tumor. Tanto que cheguei a realizar exames de ultrassom e mamografia em Bauru para confirmar o diagnóstico”. Após alguns anos, o nódulo cresceu e a mama de Keia começou a doer. “O médico decidiu fazer uma biópsia, mas, para a minha surpresa, o exame foi extraviado. Foram meses até o médico me chamar para uma nova consulta. Ele disse que não era nada grave, pediu para eu sair da sala e chamou o meu marido. Depois de alguns minutos, o médico me chamou novamente para contar que eu estava com câncer. E foi naquele momento que meu mundo desabou”.

A consulta de Keia já estava marcada em Jaú, afinal, o tempo era precioso. Não demorou para que a cirurgia fosse agendada, mais precisamente no dia 6 de outubro de 1999. O câncer tinha três centímetros, por isso, foi necessário fazer a mastectomia (retirada) total da mama esquerda. “Após a cirurgia foi realizada mais uma biópsia. Assim que ficou pronta, cerca de 30 dias após a cirurgia, iniciei as sessões de quimioterapia, que totalizaram seis. Cheguei a engordar 15 quilos, porque na minha cabeça, se eu emagrecesse estaria doente. Então comia de tudo. E em grandes quantidades”. Keia também queria fazer a radioterapia porque, segundo ela, “todo mundo fazia”, mas o médico disse que o seu caso havia ocorrido antes da menopausa e por isso não seria necessário o tratamento. “Ou seja, cada paciente é diferente um do outro”.

O alerta frequente

Foram 13 anos em alerta para uma possível volta do câncer, até que mais um nódulo apareceu, dessa vez na mama direita. “Era profundo, bem na aureola, mas não era nada grave”. A cirurgia foi um sucesso e não foi necessária a realização da quimioterapia, já que o nódulo era benigno.

Paz? Sim, mas o sinal de alerta precisa estar sempre ligado. “Faço exames a cada seis meses, para garantir que o câncer não volte”.

Religiosidade

Entre uma consulta e outra, Keia conversava com o médico sobre religiosidade. “Eu dizia ‘doutor, não posso morrer. Tenho três filhos pequenos para cuidar’ (que, futuramente, dariam à Keia seis netos). E ele me respondia que iria fazer o possível, pedia para que eu rezasse. E assim fiz. Tanto que, apesar do baque, eu comecei a ter certeza que tudo ia dar certo”.

Aos poucos a certeza de Keia começou a ganhar ainda mais força. “Certo dia, pouco tempo depois de eu descobrir o primeiro câncer, uma pessoa me contou que na cidade de Itapetininga havia um padre que conversava com as pessoas doentes. Era o primeiro domingo de outubro, dois dias antes de eu fazer a cirurgia, quando reuni a minha família e fomos para a missa. Foi uma cerimônia maravilhosa, com o padre apontando para diversas pessoas doentes, mas em momento algum ele falou do meu câncer. E hora eu me perguntava ‘será que eu não serei citada?’. Estava angustiada. Mas quando saí da igreja, olhei para a minha família e disse ‘Se estivesse com o câncer, com certeza o padre falaria. Por isso estou curada!’. Quando entrei na sala de cirurgia, Jesus, Maria e os anjos estavam todos ao meu lado. Tanto que me sentia limpa, leve e cheia do Espírito Santo”.

A família

Casada com Horácio Moretto Filho, Keia tem três filhos: Elizandra Paccola Moretto Almeida, Ediza Paccola Moretto Galli e Otávio Paccola Moretto. E cada um reagiu de uma forma diferente ao primeiro câncer da mãe. “A minha filha mais velha, Elizandra, tinha 17 anos na época e estava prestes a prestar vestibular. Depois que descobri o primeiro câncer, ela falou que não ia mais estudar e nem ir à igreja. Então eu disse a ela ‘faça ao contrário, minha filha, reze para a sua mãe estar saudável, porque eu quero ver a sua formatura’. E esse foi o estímulo para ela prestar o vestibular de Odontologia e passar na USP (Universidade de São Paulo), sem precisar de cursinho”.

A filha do meio, Ediza, na época com apenas 15 anos, “só chorava” como a própria Keia relata. “Depois de muito tempo, uma pessoa disse que a Ediza vivia chorando na escola, mas quando chegava em casa tentava esconder a tristeza para que eu não percebesse”. Otávio, que havia acabado de completar 13 anos, queria apenas alegrar a mãe. “Ele se escondia e me assustava, como se aquilo fosse me distrair”. O esposo, que tem como principal característica a discrição, preferia não demonstrar o que sentia. “Ele é uma pessoa muito quieta, por isso tenho certeza que sofreu calado”.

Além do apoio da família, a Capa do Outubro Rosa escolheu a música como um suporte para os momentos difíceis. “Na minha casa tinha um caraoquê, no qual eu cantava três, quatro dias seguidos até a tristeza passar”. Questionada sobre a música que marcou a sua vida até agora, ela não titubeia. “Com certeza Escrito nas Estrelas, de Tetê Espíndola, e Chuva de Prata, cantada por Gal Gosta”.

Keia, hoje

Após o câncer de mama, Keia agora se diz outra pessoa. “Sou mais chorona e emotiva, evito discussões e brigas. Nas consultas, o médico sempre diz que o que vai me matar não é o câncer, mas sim o estresse. Por isso, se estou triste com alguém, logo eu rezo”. Sentimentos estes compartilhados com a família. “Vivo pelos meus filhos e netos”, finaliza a professora aposentada.