Suicídio: vamos conversar?

Suicídio




psicólogo clínico e neuropsicólogo, Fábio Luiz Vicente aproveitou o Setembro Amarelo para falar sobre o suicídio, grave problema de saúde pública

Angelo Frachini Neto

Sim, o assunto é delicado. Tanto que muitas pessoas e até a mídia acabam se esquivando, mas o fato é que o suicídio precisa, sim, ser debatido. Neste mês, a campanha Setembro Amarelo alerta para a prevenção do suicídio, um problema de saúde pública que é grave e precisa de atenção.

No Brasil, a campanha foi criada em 2015 pelo CVV (Centro de Valorização da Vida), CFM (Conselho Federal de Medicina) e ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria), com a proposta de associar a cor ao mês que marca o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio (10 de setembro). E para falar mais sobre o assunto, a Revista O Comércio entrevistou o psicólogo clínico e neuropsicólogo, Fábio Luiz Vicente. Confira!

Revista o Comércio – O que pode levar a pessoa ao suicídio?

Fábio – O suicídio é um grave problema de saúde pública no mundo todo. Um milhão de pessoas cometem suicídio por ano. São 32 pessoas por dia, somente no Brasil. Ou seja, temos um suicídio a cada 40 segundos.



Uma pesquisa brasileira revelou que para cada uma pessoa que busca o pronto-socorro em decorrência de uma tentativa de suicídio, outras 17 estão pensando no assunto.

As causas que podem levar uma pessoa ao suicídio são multifatoriais, tais como fatores psicológicos, psiquiátricos, ambientais e genéticos. No entanto, pessoas com transtornos mentais estão entre os que apresentam maior risco para o suicídio. Dentre eles, podemos citar a depressão, o transtorno bipolar em sua fase depressiva, dependência de álcool/outras substâncias e esquizofrenia.

Revista O Comércio – Quais são os principais sintomas de um potencial suicida?

Fábio – O suicídio é uma ideia planejada e o sinal mais frequente é a desesperança, ou seja, a crença de que nada ou ninguém poderá ajudá-lo a se livrar do sofrimento. Outros sintomas, como a ansiedade, a instabilidade das emoções e a impulsividade, acabam contribuindo para um maior risco de suicídio. O suicídio acaba sendo visto como a única saída, uma forma de cessar a dor psíquica. Podemos encontrar também uma falta crônica de prazer na vida, ideias de culpa, isolamento e a intencionalidade de colocar fim a própria vida, que sempre começam com ideias vagas de morte do tipo “a vida não vale a pena”, ou então, “eu quero dormir e nunca mais acordar”, etc

Revista O Comércio – Quando é necessário procurar a ajuda de um profissional? Quais são os tratamentos mais indicados?

Fábio – As estatísticas indicam que para cada suicídio consumado, muitas tentativas ocorreram anteriormente. Dessa forma, pessoas que vivenciam transtornos mentais e que já apresentaram uma tentativa prévia de suicídio, ou então, que já manifestaram o desejo de por fim a própria vida merecem uma atenção especial e precisam buscar ajuda. Outros fatores, como história familiar de suicídio, perdas afetivas ou acontecimentos profundamente estressantes e baixa autoestima, também podem contribuir para um maior risco de suicídio.

O tratamento normalmente é uma combinação de medicamentos e psicoterapia.

Revista O Comércio – Há uma maneira de prevenir o suicídio?

Fábio – O suicídio pode ser prevenido, mas nem sempre pode ser previsto. Frases do tipo “Você precisa reagir” normalmente são utilizadas para tentar animar o paciente, no entanto, acabam levando mais dor e aumentando a sensação de culpa. Três passos podem ajudar uma pessoa em risco de suicídio. O primeiro passo é identificar o risco de uma pessoa vir a se matar. Com sensibilidade, devemos perguntar sobre ideias de morrer ou se matar. O segundo passo é ouvir com atenção, respeito e principalmente sem julgamentos morais e religiosos. O terceiro passo é conduzir a pessoa até um profissional de saúde mental, pois para quem se encontra fragilizado e sem esperanças, a iniciativa de buscar ajuda é sempre mais difícil.

Dessa forma, a prevenção é o principal fator de proteção. Ter relações familiares e sociais saudáveis e atitudes que demonstrem compreensão e apoio (coisas simples, como uma curta conversa ou um passeio, etc), manter viva as relações de amizades e cuidar da saúde também podem contribuir para o tratamento e, principalmente, para que novas tentativas não ocorram novamente.

Revista O Comércio – No caso de um potencial suicida, é necessário um acompanhamento para a vida toda?

Fábio – Casos graves em que a pessoa não tenha uma rede de proteção familiar e social, muitas vezes, necessitam de hospitalização para preservação da vida do paciente. A duração do tratamento dependerá sempre da gravidade de cada caso. Quando o paciente tem um bom suporte familiar e social, as chances de aderir ao tratamento e de superação do problema são aumentadas.

Só pensa em suicídio quem está doente! Você não pode ter medo ou vergonha de pedir e procurar ajuda, ou então, de falar a respeito com um familiar ou um amigo próximo. Lembre-se, sempre há uma saída.